Quem sou eu

Minha foto
A primeira vez que ouvi uma história, ganhei o presente mais precioso da minha vida e nesse decurso de ler, ouvir e contar histórias tive o primeiro encontro com meu eu, descobri então, o fascinante universo que há em todos nós, um universo de imensurável grandeza que de forma simples e encantadora tem me feito avaliar a cada momento, minha pequenez nesta divina arte de viver! O objetivo primacial do meu trabalho é carinhosamente contagiar o público com esta arte milenar; a intenção também é resgatar a figura do contador de histórias tradicional e mostrar a importância da narração de Histórias.

sexta-feira, 6 de abril de 2012


Esse é meu pai, o "Seu Dito"!
Um exemplo de história, a qual me sinto na obrigação de contar.
Seu Dito, 77 anos, tem dificuldade pra andar devido a idade e os "bicos de papagaio na coluna". É de raízes simples, de família humilde, fruto de misturas bem brasileira, filho de índio com baiano. Sempre preferiu ser assim simples, nunca desejou outra vida; gosta de acordar cedo, fazer sua oração


ainda sentado na cama, levanta-se lava o rosto penteia sua barba e seu cabelo branquinho, toma o café que a mãe faz mergulhando o pão no copo pra ficar bem molinho que é  pra conseguir comer, coloca seu jaleco e segue se arrastando pro quintal, que sempre foi um "ferro velho", a mãe reclama mas não tem jeito! No quintal cheio de bagunça sempre há um cantinho como esse da foto, um cantinho gostoso, fresquinho onde ele faz negócios, trabalha e cochila o dia inteiro. As pessoas sempre encontram o que precisam: roda de "fusca", cambio de "brasília", e outras tantas peças de carros que só ele mesmo sabe! Ele também compra sucata, paga barato, junta, depois vende e depois compra mais peças e mais carros velhos! A mãe quer dinheiro pra comprar as coisas da casa, pra pagar as contas mas ele não dá! Diz que vai fazer um negócio bom e vai guardando o dinheiro.
Algumas pessoas vão lá no cantinho dele apenas pra conversar, rir um pouco e ouvir suas histórias, seus causos!
Ninguém passa o "véio" pra trás. Sempre muito esperto e bem humorado pros  negócios e pra vida também. Todo mundo gosta do "Seu Dito" e tem o maior respeito e admiração por ele.
Seu Dito tinha uma Pirua Komb bem velhinha, seu veículo de trabalho, que estava sempre arrumando, fazendo o motor, e que sempre estava com tudo funcionando.
Com essa pirua ele trabalhava, viajava de Uchoa, onde mora, cidadezinha do interior de São Paulo, redondezas de São José do Rio Preto para São Paulo onde vendia sucatas e comprava mais carros velhos pra aproveitar peças ou até pra reformar e vender depois. Uns três meses antes de viajar ele se dedicava em arrumar a pirua, deixar tudo pronto, o motor, as rodas, os pneus, os faróis, os freios, o sinto de segurança, os documentos do veículo em dia, a carteira de habilitação renovada, enfim ele já sabia de todos os detalhes que a fiscalilação exigia.    
Tudo pronto, pirua carregada de sucata, banana pra não da câimbra, pão  caseiro delicioso que a mãe faz, a caixa de remédios, a caixa de ferramentas, o celular, que sempre tem crédito e mais tudo que pudesse precisar na estrada; Ah! e também sempre gostava de ir acompanhado com alguem que pudesse ajudar e fazer companhia. Desta vez quem foi, foi o Fernando, 28 anos, o mais novo dos oito filhos, o filho adotivo. Ninguém, nem a mãe, nem os filhos concordavam mais com essas viagens, mas como é impossível convencê-lo, o jeito é não deixá-lo ir sozinho.  


Meu irmão está bem, mas meu pai está no hospital com algumas complicações e o que me deixa mais triste é ver um homem tão lúcido, tão inteligente, que sabe todos os contatos telefônicos "de cabeça", que lembra das lições que aprendeu na escola, "no quarto ano primário" num quarto de hospital, confuso e falando coisa com coisa.
Mas esta história ainda não acabou e não sou eu que vou terminá-la e sim o meu Grandioso Deus que me deu meu pai de volta e meu irmão adorado.
Sem mais palavras...
Olá meus amigos estive um pouco ausente mas agora estou de volta e espero, aos poucos atualizar o blog com muitas histórias bacanas e artigos interessantes que tenho encontrado por aí.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Curso de PÓS-GRADUÇÃO A Arte de Contar Histórias –Abordagens poética, literária e performática.Mais duas semanas de prorrogação nas inscrições e o início das aulas será adiado para 27 de março. Aproveite esta oportunidade! Nos veremos lá!

2012-2013ABERTURA DAS INCRIÇÕES PARA A FORMAÇÃO DA 4ª TURMA DE PÓS-GRADUAÇÃO A ARTE DE CONTAR HISTÓRIASAbordagens poética, literária e performática PARCERIA: SIEEESP/FINOM(Faculdade do Noroeste de Minas/SEAD (Serviços Educacionais a Distância) Iniciaremos em 13 de março de 2012 (terça-feira) das 19h15 às 22h15 uma nova turma do curso de PÓS-GRADUÇÃO A Arte de Contar Histórias –Abordagens poética, literária e performática.1.      As aulas acontecerão todas as terças-feiras, exceto feriados, das 19h15 às 22h15. O curso tem a carga horária total de 400 horas (incluindo preparo do TCC) e duração de 19 meses, contando com a escrita e entrega do TCC (Trabalho de Conclusão de Curso).2.      Do programa do curso:Disciplinas
1.      Fundamentos da Arte de Contar Histórias
Prof. Ms. Giuliano Tierno de Siqueira
2.      Produção escrita poético-literária
Prof. Ms. Giuliano Tierno de Siqueira (e professores convidados)
3.      Contos tradicionais
Prof. Ms. Robson A. Santos.
4.      Memória, imaginação e imaginário: da tradição filosófica à arte da oralidade.
Prof. Ms. Fernando Chuí
5.      Psicanálise nos Contos de Fadas
Prof. Ms. Ivani Magalhães
6.      Jogos Teatrais: o jogo cênico como fundamento performático
Prof. Silvionê Chaves
            7. A narratividade em cena: como o teatro absorve e utiliza-se da narrativa oral na contemporaneidade.
Prof. Ms. Ligia Borges
8.      Performances narrativas
Profa. Especialista Simone Grande
9.      A formação da biblioteca do narrador
Profª. Ms. Ângela Castelo Branco
10.  Laboratório de manipulação de objetos
Profa. Especialista Kelly Orasi
11.  Laboratório de criatividade
Profa. Especialista Vânia Maria Cavallari e professores convidados.
12.  Laboratório de criação de canções
Prof. Ms. Fernando Chuí
13.   A corporeidade da palavra e a tatialidade do dizer do corpo
Prof. Dra. Juliana Jardim
14.  Metodologia da Pesquisa Científica
Prof. Ms. Luiz Felippe da Matta Ramos
15.  TCC – Trabalho de Conclusão de Curso.
 3.      O valor total do curso é de R$ 7.410,00 (sete mil quatrocentos e dez reais) divididos em 19 mensalidades de R$ 390,00 (trezentos e noventa reais) com vencimento todo dia 10 de cada mês.*Desconto de 10% para sindicalizados do SIEEESP, funcionários públicos de todos os níveis de estado e cooperados pela Cooperativa Paulista de Teatro: nestes casos o curso terá o valor total de R$ 6.669,00 (seis mil seiscentos e sessenta e nove reais) divididos em 19 mensalidades de R$ 351,00 (trezentos e cinqüenta e um reais) com vencimento todo dia 10 de cada mês.4.      As inscrições poderão ser efetuadas pessoalmente de 16 de janeiro a 17 de fevereiro de 2012 das 8h às 17h no Departamento de Cursos (com Izabel ou Eduardo) do SIEEESP (Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo), situado à Av. Dr. Altino Arantes, 225 – Vl. Clementino – São Paulo/SP (próximo à estação de metrô Santa Cruz – linha azul). Telefone para informações: 11 – 5583-5523.5.      Para efetuar a inscrição o candidato deverá entregar pessoalmente ao SIEEESP a seguinte documentação: Xerox de RG, CPF, Certificado de Conclusão de Graduação, breve currículo descrevendo as experiências de formação e profissionais e preenchimento de ficha de inscrição no ato de entrega da documentação.6.      Após a inscrição os candidatos passarão pela seguinte seleção: análise de currículo e entrevistas nos dias 27, 28 e 29 de fevereiro de 2012 (previamente agendadas para realização de maneira individual pela coordenação do curso com cada candidato das 19h às 22h).7.      Matrículas: 5, 6 e 7 de março de 2012 de segunda a quarta-feira das 19h às 22h no SIEEESP (Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo), departamento de cursos com a coordenação do curso. No ato de matrícula o candidato deverá entregar: documentação completa (2 fotos 3x4, Xerox autenticado do certificado de conclusão de curso de graduação, Xerox autenticado do histórico escolar, Xerox da certidão de nascimento ou casamento, Xerox de reservista, Xerox do título de eleitor, Xerox de comprovante de residência e comprovantes da última eleição), efetuar o pagamento da primeira, das 19 mensalidades. As mensalidades terão o vencimento todo dia 10 de cada mês a partir do mês de março de 2012, portanto no ato da matricula o candidato deverá efetuar o pagamento da primeira parcela com dinheiro ou cheque pré-datado para o dia 10 de março referente à primeira mensalidade. As demais mensalidades serão consecutivas e terão vencimentos via boleto bancário todo dia 10 de cada mês a partir de abril de 2012.9.      Início: 13 de março de 2012 – Término: Outubro de 2013INFORMAÇÕES E INSCRIÇÕES
11 - 5583-5523
Ou
e-mail: contarhistorias.pos@gmail.com
 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A Galinha Ruiva

Era uma vez uma galinha ruiva, que morava com seus pintinhos numa fazenda.
Um dia ela percebeu que o milho estava maduro, pronto para ser colhido e virar um bom alimento.
A galinha ruiva teve a idéia de fazer um delicioso bolo de milho. Todos iam gostar!
Era muito trabalho: ela precisava de bastante milho para o bolo.
Quem podia ajudar a colher a espiga de milho no pé?
Quem podia ajudar a debulhar todo aquele milho?
Quem podia ajudar a moer o milho para fazer a farinha de milho para o bolo?
Foi pensando nisso que a galinha ruiva encontrou seus amigos:

- Quem pode me ajudar a colher o milho para fazer um delicioso bolo? - Eu é que não, disse o gato. Estou com muito sono.
- Eu é que não, disse o cachorro. Estou muito ocupado.
- Eu é que não, disse o porco. Acabei de almoçar.
- Eu é que não, disse a vaca. Está na hora de brincar lá fora.
Todo mundo disse não.
Então, a galinha ruiva foi preparar tudo sozinha: colheu as espigas, debulhou o milho, moeu a farinha, preparou o bolo e colocou no forno.
Quando o bolo ficou pronto ...
Aquele cheirinho bom de bolo foi fazendo os amigos se chegarem. Todos ficaram com água na boca.
Então a galinha ruiva disse:
- Quem foi que me ajudou a colher o milho, preparar o milho, para fazer o bolo?
Todos ficaram bem quietinhos. ( Ninguém tinha ajudado.)
- Então quem vai comer o delicioso bolo de milho sou eu e meus pintinhos, apenas. Vocês podem continuar a descansar olhando.
E assim foi: a galinha e seus pintinhos aproveitaram a festa, e nenhum dos preguiçosos foi convidado

O menino e a avó gulosa

O menino só possuía um guiné. Numa ocasião de necessidade matou o guinezinho e saiu pra adquirir farinha. Quando voltou, a avó, que morava com ele, comera o guinezinho inteiro. O menino reclamou muito e avó lhe deu um machadinho.
Saiu o menino pela estrada e encontrou o pica-pau furando uma árvore com o bico.
– Pica-pau! Não se usa mais o bico para cortar pau. Usa-se um machadinho como esse…
- Oh! Menino! Empreste-me o machadinho.
O menino emprestou o machadinho ao pica-pau e este tanto bateu que o quebrou.
O menino recomeçou a choradeira:
- Pica-pau, quero meu machadinho que minha avó me deu, matei meu guinezinho e minha avó comeu.

O pica-pau deu ao menino um cabacinho de mel de abelhas. O menino continuou a viagem e lá adiante viu o papa-mel lambendo um barreiro que só tinha lama.
– Papa-mel! Não se usa mais beber lama. Usa-se beber um melzinho como esse…
- Oh! Menino! Me dê um pouquinho desse mel!
Que pouquinho foi esse que o papa-mel engoliu todo o mel e ainda quebrou o cabacinho. O menino abriu a boca no mundo, berrando. O papa-mel presenteou-o com uma linda pena de pato. O menino seguiu.
Lá na frente encontrou um escrivão escrevendo com uma pena velha e estragada.
– Escrivão! Não se usa mais escrever com uma pena estragada como essa e sim com uma boa e novinha como esta aqui…
- Oh! Menino! Empresta-me tua pena…
O bobo do menino emprestou a pena. Num instante o escrivão estragou a pena. O menino cai no prato. O escrivão lhe deu uma corda.
Depois de muito andar, o menino avistou um vaqueiro tentando laçar um boi com um cipó do mato.
– Vaqueiro! Não se usa mais laçar boi com cipó e sim com uma corda como essa.
– Oh! Menino! Me empresta essa corda.
O menino, vai, emprestou. Num minuto o vaqueiro laçou o boi mas rebentou a corda.
Novo chororô do menino. O vaqueiro lhe deu um boi.
O menino viu a onça, uma enorme, comento um resto de carniça.
– Onça! Não se usa mais comer carniça e sim um boi como esse meu!
- Oh! Menino! Me dê o seu boi!
E comeu o boi. O menino ficou no soluço, choramingando e pedindo o boi:
- Onça, me dê meu boi que o vaqueiro me deu; o vaqueiro quebrou minha cordinha, a cordinha que o escrivão me deu; o escrivão quebrou minha peninha, a peninha que o papa-mel me deu; o papa-mel bebeu meu melzinho, o melzinho que o pica-pau me deu; pica-pau quebrou meu machadinho, o machadinho que minha avó me deu; matei meu guinezinho e minha avó comeu!
A onça como não tinha coisa alguma para dar ao menino, disse, rosnando:
- O boi foi pouco e vou comer você!
E comeu o menino.
CASCUDO, Luís da Câmara.

Guiné: galinha d’angola
Papa-mel: animal carnívoro da família dos mustélidas; irara

ESTÓRIAS DE ASSOMBRAÇÃO

O homem morreu. Sua casa tonou-se mal-assombrada. Ás noites ouviam-se gritos: "Eu caio, eu caio". Certo dia um homem corajoso resolveu entrar na casa e saber do acontecimentos. Ficou esperando, esperando... Muito tarde da noite, quando já havia perdido as esperanças de mostrar sua coragem, ouviu gritos: "Eu caio, eu caio". Então ele respondeu: "Pode cair". E do teto caiu um pé com a perna direita. Outra vez: eu caio, eu caio. Pode cair, tornou responder o corajoso. E assim foram caindo as partes do corpo humano. Quando caiu a cabeça, o homem falou: "Era muito rico e guardava todo dinheiro no buraco da madeira (carnaúba) que já estava velha." Deu todo o dinheiro para o corajoso que foi para sua casa gozar da fortuna inesperada. A casa se desencantou.
(Maria Duarte - Fazenda Grande - BA - 1979).

***

Era no tempo das lamentações das almas. Quem acompanhava a procissão não devia voltar. Uma mulher quis retornar a casa. Havia esquecido as velas. Já estava na Quarta parada. Ninguém que ela voltasse. Mas a mulher insistiu e foi. Quando esta no meio do caminho apareceu uma coisa feia, o diabo talvez. Assustou-se e começou a gritar, mas ninguém a ouvia. Pediu socorro. De repente apareceram as figuras da mãe, do pai e da avó (já falecidos). Salvaram a moça que poderia desaparecer para sempre.
(Maria Duarte - Fazenda Grande - BA - 1979)

***

Um homem "esmorecido" (medroso) estava sozinho em casa, quando alguém lá entrou com um caixão de defunto, ordenado que o homem o enterrasse. E desapareceu. O homem que morria de medo foi ao cemitério e começou a fazer o buraco. Olhou para o caixão e viu que o nariz do morto era muito largo e saía para o lado de fora. Tentou enterrar e não coube na cova. Tirou o caixão da cova e fez um buraco maior. Tentou novamente e sempre o nariz ficava para o lado de fora. Então pegou uma faca e fez o gesto de cortar o nariz. Quando começou a cortar, do nariz só saía dinheiro. Abriu o caixão e não tinha nenhum defunto, só tinha dinheiro. o homem "esmorecido" ficou muito rico e perdeu pra sempre o medo que tinha.
(Geneliza - Fazenda Grande, 1979).

A assombração

Tinha um grupinho de moços que gostava muito de pregar peças um no outro.

Uma vez eles estavam bebendo numa venda perto do cemitério e um deles saiu antes dos outros, foi na casa dele, pegou um lençol, se enfiou nele e ficou na porta do cemitério, pra assustar os companheiros, quando eles passasem por lá.

Logo que os amigos iam chegando, ele garrou a dar gritos e dançar. Mas, depois ele olhou de lado, deu um berro e caiu duro no chão. Bem perto dele tinha uma assombração igualzinha a ele, também gritando e dançando. Só que não era fingida; era de verdade mesmo.

(Ouvida de uma menina, numa rodinha, talvez em 1939.)