Quem sou eu

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A primeira vez que ouvi uma história, ganhei o presente mais precioso da minha vida e nesse decurso de ler, ouvir e contar histórias tive o primeiro encontro com meu eu, descobri então, o fascinante universo que há em todos nós, um universo de imensurável grandeza que de forma simples e encantadora tem me feito avaliar a cada momento, minha pequenez nesta divina arte de viver! O objetivo primacial do meu trabalho é carinhosamente contagiar o público com esta arte milenar; a intenção também é resgatar a figura do contador de histórias tradicional e mostrar a importância da narração de Histórias.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O menino e a avó gulosa

O menino só possuía um guiné. Numa ocasião de necessidade matou o guinezinho e saiu pra adquirir farinha. Quando voltou, a avó, que morava com ele, comera o guinezinho inteiro. O menino reclamou muito e avó lhe deu um machadinho.
Saiu o menino pela estrada e encontrou o pica-pau furando uma árvore com o bico.
– Pica-pau! Não se usa mais o bico para cortar pau. Usa-se um machadinho como esse…
- Oh! Menino! Empreste-me o machadinho.
O menino emprestou o machadinho ao pica-pau e este tanto bateu que o quebrou.
O menino recomeçou a choradeira:
- Pica-pau, quero meu machadinho que minha avó me deu, matei meu guinezinho e minha avó comeu.

O pica-pau deu ao menino um cabacinho de mel de abelhas. O menino continuou a viagem e lá adiante viu o papa-mel lambendo um barreiro que só tinha lama.
– Papa-mel! Não se usa mais beber lama. Usa-se beber um melzinho como esse…
- Oh! Menino! Me dê um pouquinho desse mel!
Que pouquinho foi esse que o papa-mel engoliu todo o mel e ainda quebrou o cabacinho. O menino abriu a boca no mundo, berrando. O papa-mel presenteou-o com uma linda pena de pato. O menino seguiu.
Lá na frente encontrou um escrivão escrevendo com uma pena velha e estragada.
– Escrivão! Não se usa mais escrever com uma pena estragada como essa e sim com uma boa e novinha como esta aqui…
- Oh! Menino! Empresta-me tua pena…
O bobo do menino emprestou a pena. Num instante o escrivão estragou a pena. O menino cai no prato. O escrivão lhe deu uma corda.
Depois de muito andar, o menino avistou um vaqueiro tentando laçar um boi com um cipó do mato.
– Vaqueiro! Não se usa mais laçar boi com cipó e sim com uma corda como essa.
– Oh! Menino! Me empresta essa corda.
O menino, vai, emprestou. Num minuto o vaqueiro laçou o boi mas rebentou a corda.
Novo chororô do menino. O vaqueiro lhe deu um boi.
O menino viu a onça, uma enorme, comento um resto de carniça.
– Onça! Não se usa mais comer carniça e sim um boi como esse meu!
- Oh! Menino! Me dê o seu boi!
E comeu o boi. O menino ficou no soluço, choramingando e pedindo o boi:
- Onça, me dê meu boi que o vaqueiro me deu; o vaqueiro quebrou minha cordinha, a cordinha que o escrivão me deu; o escrivão quebrou minha peninha, a peninha que o papa-mel me deu; o papa-mel bebeu meu melzinho, o melzinho que o pica-pau me deu; pica-pau quebrou meu machadinho, o machadinho que minha avó me deu; matei meu guinezinho e minha avó comeu!
A onça como não tinha coisa alguma para dar ao menino, disse, rosnando:
- O boi foi pouco e vou comer você!
E comeu o menino.
CASCUDO, Luís da Câmara.

Guiné: galinha d’angola
Papa-mel: animal carnívoro da família dos mustélidas; irara

Um comentário:

  1. Minha mãe sempre me contava essa história na infância, porém de um modo diferente e com rimas a cada acontecimento. A propósito à denominação na língua portuguesa pra essas rimas que vão acomulando fatos e os rimando, por exemplo como na ultima fala do menino onde ele rima e remete a todos os ocorridos anteriores ?

    Parabéns pelo blog estou adorando

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